Começo meu dia com o Salmo 112 — um salmo de sabedoria, acróstico, que se coloca como continuação natural do Salmo 111.
Se o 111 celebra as obras do Senhor, o 112 contempla o reflexo dessas obras na vida do homem justo.
Não como moralismo, mas como ontologia viva: o justo não age para se justificar, mas porque sua alma já ressoa com a Verdade.
O Salmo afirma: “Feliz o homem que teme ao Senhor.”
Mas esse temor não é medo, é honra ativa; é responder com a vida à realidade de um Deus que É.
Esse justo “jamais será abalado”, não porque é imune ao sofrimento, mas porque nada lhe faz falta.
Ele vive ancorado em algo maior que si, e por isso, mesmo quando tudo lhe falta, ele permanece.
A justiça aqui não é linha de chegada; é caminho habitado em busca sincera.
Não é perfeição, é fidelidade.
E se somos feitos à imagem de Deus, então ser fiel a Deus é ser fiel a nós mesmos em nossa forma mais profunda.
Reconheço que essa justiça, essa escuta, nem sempre é consciente.
Mas onde há busca verdadeira, há eco do divino.
E mesmo quem ainda não reconhece a origem do chamado,
pode já estar respondendo a ele — com seus passos, com sua dor, com sua esperança.
A justiça do Salmo 112 é isso: eco, resposta, ressonância.
Não é posse da verdade; é vida alinhada com aquilo que a sustenta.
E se a verdade se manifesta com forma, como crêem muitos, eu acolho.
Mas se ela ainda não foi nomeada por alguém, não a retiro de quem já a vive por dentro.
No fim, o justo é aquele que escuta. E caminha.
E não se abala, porque já pertence.