Hoje foi dia de Salmo 84.
Um salmo que expressa o anseio do salmista por habitar na presença do Senhor —
a causa final, como diria Tomás de Aquino, ecoando Aristóteles.
Em parte, é saudade do eterno. Mas mais que saudade: é desejo.
Desejo por algo que este mundo nunca entregou. Por outro lado, é também um lamento histórico — do povo exilado, distante do templo.
De um lado, o abstrato — que fala com quem lê. Do outro, o concreto — que nasce de quem escreveu. Ambos verdadeiros. Ambos úteis. Ambos vivos.
Para mim, é manifestação do Espírito. Um mesmo texto, conversando com realidades diferentes — sem forçar escolha entre alegoria e literalidade.
Reconhecer algo maior que o eu é o primeiro passo pra se libertar do próprio ego. Mas, sem preparo, pode ser também desculpa: uma forma de fugir da própria responsabilidade, escondido sob a proteção uterina do divino.
Coragem e covardia. As duas cabem.
Mas deixemos o cinismo de lado por um instante. Nem todo símbolo é máscara. Nem toda dor é disfarce. O Salmo 84 não esconde o sofrimento — transforma-o em canção.
Pode haver sublimação. Mas também há lucidez. A tentativa humana de nomear o indizível, de organizar a complexidade da existência com modelos simbólicos. Necessários, mesmo que imperfeitos.
O Salmo 84 é sensível. E não permite absolutismo, nem idealização.
Lê-lo exige escuta. Exige nuance. Exige disposição pra verdade — sabendo que ela nem sempre está num extremo.
A palavra não foi escrita apenas pra que você a leia. Mas pra que, ao lê-la, ela leia você.