Hoje comecei o dia com o Salmo 83.
É uma oração imprecativa. Polêmica.
Um clamor pela destruição de inimigos.
Difícil de aceitar. Mais ainda de explicar.
Mas talvez Deus tenha permitido esse registro não por ser ideal, mas por ser real.
A alma humana fala com Deus como pode — não como deveria.
O pedido é por justiça.
Não por vingança pessoal.
Lido ao pé da letra, o texto é brutal.
Mas não deve ser descartado por isso.
Texto sagrado também confronta.
Quando leio, não busco só o que o autor quis dizer.
Busco também o que o texto me obriga a enxergar agora.
Leitura espiritual é mais do que interpretação.
É também uso. Aplicação. Movimento.
Uma leitura possível:
O salmo trata dos inimigos da alma — não só de nações.
Edom como conflitos familiares.
Moabe como tentações.
Amaleque como traições em tempos de vulnerabilidade.
Filisteus como os desafios que exigem perseverança.
Talvez seja sublimação.
Mas acho útil.
Ajuda a tornar o texto habitável.
E isso importa.
O salmo nos lembra que liberdade não é fazer o que se quer.
É amar o bem.
E isso é dom da graça — não só esforço humano.
O texto é oração.
Não é tratado ético.
Pedir justiça a Deus, ainda que com imagens duras,
é parte da gramática espiritual de um povo que não fugia do conflito —
mas o colocava na presença de Deus.
A justiça divina pode ser severa.
Mas é sempre justa.