Hoje foi dia de Salmo 88, uma súplica desesperada de alguém que se sente esquecido por Deus e cercado por aflições.
Alegoricamente, é um retrato da alma humana em estado de desespero e alienação espiritual.
A escuridão e o silêncio representam não apenas sofrimento, mas separação — do divino, de si mesmo, da esperança. Confessar a dor é o começo da cura. A humildade quebra o orgulho, que é sempre raiz da distância.
Moralmente, o Salmo 88 fala de perseverança. Mostra que é legítimo expressar dor. Reclamar. Perguntar. Fé não exige negação da dor — exige atravessá-la.
Na leitura anagógica, há antecipação da redenção. Mesmo na ausência sentida, existe a semente da esperança. A luz não aparece, mas está pressentida. A ressurreição é apenas sussurrada — e ainda assim, presente.
Dizer que Deus está ausente não é fuga. É um enfrentamento honesto. Um silêncio entre dois que se conhecem. E mesmo na ausência, há relação.
Para quem não crê, o salmo pode parecer fraqueza ou dependência disfarçada de fé. Mas para quem crê, ele é coragem: a coragem de dizer que está doendo, e mesmo assim continuar em diálogo.
Num tempo em que se espera que tudo esteja bem, a honestidade do salmista é louvável. Confessar a dor é o primeiro passo para atravessá-la.
Negar Deus pode parecer, para alguns, um ato de coragem. Mas também pode ser só uma escolha protegida por descrença. E precisa ser respeitada — mas não usada como argumento contra quem escolhe crer.
Quem crê, e um dia se deparasse com a inexistência de Deus, enfrentaria um vazio profundo. Mas quem crê, de verdade, sente-se preenchido pelo Espírito — e esse preenchimento é mais sentido do que explicado.
A redenção, para quem crê, não vem por mérito, mas por graça. E o sofrimento, às vezes, não é punição. É ferramenta. É processo. É mistério.
Buscar proteção em Deus como Pai não é infantilidade. Mas é preciso maturidade para não confundir fé com dependência cega. A alma foi feita para um relacionamento profundo. Mas esse relacionamento pede crescimento.
Este salmo me faz refletir não apenas sobre o que está dito, mas sobre o que falta dizer. Talvez porque a dor, às vezes, ultrapasse o que a linguagem consegue carregar.
No fim, pergunto: qual o problema real em sentir dor? Dizem que ela ensina. Que é preço de algo maior, mesmo que desconhecido. E talvez seja isso mesmo.
Admitir a dor não é fraqueza. É um ato corajoso de humanidade.