Hoje foi dia de Salmo 86. Um dos poucos salmos atribuídos a Davi no “terceiro livro” do Saltério (Salmos 73–89). Uma súplica por misericórdia, proteção e perdão.
Não nasce da ilusão de que tudo pode ser resolvido com esforço.
Nasce do reconhecimento honesto da falha — e do limite.
É uma oração crua. De quem não finge autossuficiência. Mas também, às vezes, pode ser usada como desculpa.
Misericórdia é perdão pra quem não merece.
Graça é presente pra quem não tem mérito.
Ambas são divinas. Mas deveriam ser humanas também. Expressão de quem crê — e não só discurso.
O Salmo 86 é de quem entendeu — como eu — que a dor fala mais alto que o orgulho. É o megafone de Deus num mundo surdo.
Mais que expressão, é gesto. Mais que teologia, é prática. Um modo de vida possível. E, pra mim, o menos insuportável.
Nietzsche talvez chamasse essa oração de fraqueza. Mas, pra mim, ela é sustentação. Não me interessa se é verificável. Interessa que me sustenta.
A linguagem da fé não é farsa. É grito.
E, às vezes, o crente também olha pro altar e não vê ninguém. Mas continua indo. Continua orando. Porque sabe que o silêncio de Deus não é ausência — é espera.
Não posso provar Deus a quem não crê. Minha própria noção Dele escapa daquilo que chamamos de “prova”. E o ateu, por sua vez, também não pode provar o contrário.
Crer e não crer são escolhas existenciais. Ambas envolvem fé — de naturezas diferentes. Ambas vivem o vazio. A diferença está no que fazem com ele.
A incapacidade de entender isso é o que gera ruído, conflito e arrogância. A fé que prega graça e misericórdia deveria saber praticar as duas.
Inclusive com quem pensa diferente.
Especialmente com quem pensa diferente.