A PMI está comprando a Agile Alliance. O que você acha disso? Deixa eu compartilhar meus dois cents.
A leitura mais fácil é imaginar o gigante da governança absorvendo a rebeldia do chalé. Mas, sendo sincero, a agilidade já vinha caminhando na direção do PMI faz tempo. Em muitos lugares, ela perdeu a própria identidade antes mesmo da fusão. A promessa de fluidez virou repetição automática. A ousadia virou cartilha.
E tem um detalhe que pouca gente admite. Muitos dos ritos que o pessoal garganteava como “ultra ágeis” já estavam no PMBoK há anos. Só que eram ritos executados de terno e gravata. Chamavam de gestão tradicional, mas tinham review, tinham acompanhamento incremental, tinham gestão contínua de riscos. Era uma agilidade atravessada, tímida, sem poesia, mas presente. E, ironicamente, era mais disciplinada que muita sprint que vejo por aí.
Hoje, vejo times usando frameworks ágeis com mais burocracia do que eu aplicava quando escrevia Termo de Abertura de Projeto nos meus primeiros anos de carreira. Sprint que não resolve. Retrospectiva que não muda nada. Cerimônia que só organiza calendário. É liturgia disfarçada de evolução. E liturgia não entrega valor.
E o discurso sobre valor para o negócio virou um mantra que quase ninguém sustenta. Virou slogan. Todo mundo repete. Ninguém explica. Valor para o usuário tomou o lugar de valor para o negócio e, às vezes, nem isso. Já vi time comemorar feature que derruba margem. Já vi produto ganhar novas funções enquanto o caixa derrete. Já vi empresa perseguir satisfação do usuário enquanto ignora estratégia, CAC, churn e sustentabilidade. Se o usuário está sorrindo, mas o negócio está sangrando, isso não é valor. Isso é miopia.
Por isso, o risco maior dessa fusão não é o PMI engolir a agilidade. O risco maior é a agilidade continuar se engolindo sozinha, transformando método em teatro e propósito em slide. Quando a cerimônia vira fim, o negócio perde vantagem. Quando o ritual vira prioridade, a estratégia perde foco. E quando todo mundo acha que está fazendo agilidade, mas ninguém presta atenção no negócio, o resultado é sempre o mesmo: movimento sem direção.
A pergunta final é simples. Essa fusão vai nos ajudar a recuperar a agilidade de verdade ou só vai oficializar uma versão domesticada, confortável e inofensiva dela? A resposta diz menos sobre o PMI e a Agile Alliance e mais sobre a coragem que cada um de nós tem de resgatar o que realmente importa.