13/07/2024

Escrevendo certo por linhas tortas

Outro dia, estava conversando com minha sobrinha. Recém-batizada, ela ainda se debatia com o entendimento, ou a falta dele, que existe no meio religioso. Ela reclamava da postura de algumas pessoas que congregavam com ela, criticando-a por coisas do passado.

Eu disse a ela que sua postura deveria ser de gratidão genuína. Afinal, que honra receber repreensão de gente que acha ou entende que pode falar em nome de Deus! Como essas pessoas têm coragem de julgar, contrariando o próprio livro de Tiago, que fala claramente sobre a necessidade de controlar a língua? Tiago adverte que a fé sem ações é morta. A fé professada apenas em palavras não é, como ensina Tiago, verdadeira nem cristã.

Para ilustrar meu ponto, contei a ela sobre alguns personagens bíblicos que também enfrentaram julgamentos e cometeram erros. Saul sucumbiu ao ciúme de Davi. Davi, que parecia fiel a Deus, falhou ao se envolver com Bate-Seba. Sansão pecou pela vaidade, e Salomão, conhecido por sua sabedoria, acabou seguindo deuses estrangeiros. O apóstolo Paulo, antes conhecido como Saulo, perseguia cristãos. Até mesmo o profeta Elias, que fez cair fogo do céu contra centenas de “sacerdotes pagãos”, fugiu com medo de uma rainha.

Esses exemplos não apenas mostram a imperfeição humana, mas também a capacidade de Deus em realizar sua obra perfeita através de seres falhos. Assim como os heróis bíblicos, também nós não somos “totalmente bons”. Erramos e dependemos da Graça e Misericórdia divina. Essas histórias mostram que, apesar de nossas falhas, Deus pode nos usar para cumprir seus propósitos.

Minha sobrinha também questionou a autenticidade de algumas manifestações, como o “falar em línguas”. Será que todos realmente estão falando em línguas ou estão apenas fingindo? Eu disse que, na prática, não faz diferença. É possível que algumas pessoas estejam fingindo e, nelas, a manifestação seja falsa. Mas, para quem presencia, pode ouvir algo que conecta com o Espírito Santo. Essa é uma das belezas de Deus: ressignificar o errado para cumprir um propósito certo.

Outro ponto interessante é a obsessão quase doentia de algumas pessoas em “seguir a palavra”. Vale sempre o que está na Bíblia e ela é a fonte segura da verdade. Pois bem, o problema é que a Bíblia é entendida através de nossos filtros ou através dos filtros dos outros. Ter a Bíblia como referência é indiscutível, mas o extremo que sempre leva ao engano conduz a algo mais do que condenado: a idolatria.

Feitos à imagem do Criador, somos também nós criadores, ou pelo menos co-criadores de nossas realidades. Tal como Deus, deveríamos buscar ressignificar o que é ruim em coisas boas, praticando a tolerância, sempre com amor, mas sem esquecer a justiça.

Voltando à conversa com minha sobrinha, expliquei que depender de Deus, não de maneira funcional, mas emocional, não é sinal de fraqueza, mas uma prova de fé e humildade. É na nossa imperfeição que a Graça se torna visível e poderosa, mostrando que a verdadeira força não está em nós, mas na obra que Deus realiza através de nós. O mesmo ocorre com relação à vida das pessoas ao nosso redor. Sempre conhecemos apenas um recorte. O juízo, então, é sempre falho. Isso é ensinado na história de Jó. Os amigos de Jó tentavam convencê-lo de que, se coisas ruins estavam acontecendo, era porque ele era falho. O que há de diferente nesse comportamento daquele que encontramos em algumas igrejas? E que grande lição Deus ensina a Jó, evidenciando sua falta (e, sem dúvidas, a nossa) de compreensão e sua capacidade limitada de entender o divino.

Recentemente, dúvidas semelhantes às da minha sobrinha surgiram de outras pessoas que também gosto. Honestamente, sinto-me honrado, pois, mesmo sob toda minha imperfeição, ou talvez exatamente por causa dela, sou instrumento para responder. Sei que posso estar interpretando as coisas de forma errada. Mas minha fé em Deus me faz esperar que minha intenção genuína faça com que Ele leve o certo para quem ouve, mesmo quando o que eu falo não está correto.

O crente não deve fazer as coisas por temor (no sentido de ter medo) de Deus, mas por Temor (respeito e reconhecimento) Dele. Cada esforço, se houver, deve ser recebido como uma prática de amor a Deus e, também, do Amor Dele por nós. Ele não depende de nós, não precisa de nós. O que fazemos por Ele é uma oportunidade para nós, nunca para Ele.

Deus, definitvamente, escreve certo por linhas tortas.

Sabedoria e entendimento. Não há como desenvolver Sabedoria, que é musculatura, sem buscar o Entendimento, que é relação. Deus dá a Sabedoria divina em abundância a quem solicita. Mas, isso não implica na falta de necessidade de que tomemos posse (aliás, foi exatamente assim com a Terra Prometida).

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