Comecei o dia com o Salmo 82 — curtinho, mas denso. Duas coisas me chamaram atenção.
Primeiro, o chamado — frequentemente ignorado — para que quem pode mais cuide de quem pode menos. Depois, o lembrete inevitável: a finitude, que alcança tanto o fraco quanto o forte.
A expressão “vós sois deuses” aparece ali como denúncia, não como elogio.
Mostra como os homens investidos de poder esquecem sua origem divina — e agem com arrogância, corrupção e distância.
Mas o Salmo não para aí.
Ele aponta para a intervenção divina que traz a morte como equalizadora.
Independente da crença ou não no Eterno, somos todos iguais diante do fim.
Essa finitude é mais que destino biológico. É a humilhação necessária para a redenção — com ou sem a doutrina da salvação. Sem ela, o orgulho se torna absoluto.
No fim, a morte, para o soberbo, é justiça.
Para o justo, é passagem.
Mesmo que alguém diga: “Estou vivo, e isso me basta”, a pergunta permanece: como não ceder à ilusão niilista de que nada importa, de que só o imediato faz sentido — e o sentido, mesmo assim, é pequeno?
Uma coisa é certa: a morte exige resposta — não no fim, mas em vida.
Nós, homens, criamos valores. Nossa “verdade” é imperfeita.
Até mesmo Deus, para nós, é em parte interpretação. Nossa fé mais honesta ainda traz traços da nossa fome, do nosso desejo, da forma como estamos no mundo.
Deus não muda para se adaptar ao homem.
Mas Ele pode renascer em nós quando deixamos morrer os ídolos que fizemos Dele.
Aí sim, novos começos se tornam possíveis. Não porque reinventamos Deus — mas porque Ele nos refaz.
O temor pode nos levar a Deus.
Mas é o amor que nos faz permanecer.
Deus está vivo.
Mas Ele quer morrer em nós — não para desaparecer, mas para renascer de outro modo.
Não para reagirmos ao fim,mas para permitirmos, todos os dias, um novo começo.